
A história do esporte brasileiro nos conta que são raros os casos de atletas em atividade que levantam a voz contra a política de gestão vigente, que lhe afeta diretamente na direção de confederações e demais entidades do segmento. E neste pequeno universo, os nomes que se fazem ouvir geralmente sabem que precisarão lidar com algum tipo de consequência nascida da ousadia de sua opinião. Em um ano olímpico, Diogo Silva engrossa essa lista ao colocar para fora toda sua bagagem politizada para contestar a validade do continuísmo de dirigentes esportivos.

Classificado para a disputa do taekwondo nos Jogos de Londres deste ano, Diogo Silva ficou marcado na carreira pelo gesto de "pantera negra", com o punho direito cerrado e erguido, no pódio do Pan-Americano do Rio de Janeiro. Vencedor daquela disputa de 2007, o atleta da categoria até 68kg na oportunidade dizia chamar atenção para a causa dos negros, em engajamento desenvolvido com a admiração pelo líder sul-africano Nelson Mandela e pela sintonia com as letras de contestação do rap. Hoje, em entrevista ao UOL Esporte, o personagem que se descreve como uma "mente pensante no esporte" relata ter enfrentado repreensões extraoficiais por causa da atitude política executada dentro de um ambiente competitivo.
Sobre a gestão de Carlos Arthur Nuzman no comando do COB, que hoje cumpre seu quinto mandato e está no topo da entidade desde 1995, Diogo Silva diz entender que em tempos atuais não é possível aceitar uma administração que se prolongue por quase duas décadas: "Não podemos ter 20 anos com o Nuzman, precisamos de uma reformulação sobre isso". O destaque do taekwondo relata que este tema vem sendo discutido ultimamente no âmbito de atletas olímpicos e faz analogia da situação do dirigente com o continuísmo de Ricardo Teixeira à frente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol).
ENTREVISTA:
Você está classificado e chegará a Londres com 30 anos. Li que você planejou sua carreira para que este seja o auge dela. É isso mesmo?
Diogo Silva: Foi. No começo da minha carreira, o esporte não tinha nenhuma referência, nenhum investimento, nenhum ídolo. A minha geração foi pioneira nessa questão. Imaginei que em Pequim ou em Londres estaria bem melhor. Sabia que iria colher todos esses frutos. Em Londres possivelmente estaremos em uma das melhores etapas mundiais do taekwondo brasileiro.
Todos os profissionais aqui passam por um trabalho envolvendo a parte cientifica e psicológica. Estou bem maduro, mais experiente. Estou totalmente adaptado a clima de tensões, como são os Jogos Olímpicos. Usamos a psicologia para diminuir a sensação de tensão e ansiedade. Na parte cientifica, passamos por exames de laboratório para saber como o corpo evolui, como reage ao stress, à fadiga.
Você acredita ir aos Jogos com chances reais de brigar por uma medalha?
Diogo Silva: Pelo que aconteceu nos últimos três anos, ganhei o mundial universitário, o mundial militar, conquistei o bronze no pré-olímpico mundial, que é a única competição abaixo da Olimpíada, em nível. Ficar entre os três melhores durante quatro meses me dá essa percepção de ter saído de atleta de nível continental para nível mundial. Sei que posso vislumbrar uma medalha Londres. Lutei com 50% ou 60% dos lutadores que vão estar lá. Já venci alguns deles, já perdi de alguns. A diferença para a gente é mesmo de investimento e de cultura esportiva.
Você disse que não tinha referências quando começou. O que te levou então ao taekwondo?
Diogo Silva: Quando eu era criança, comecei sete anos, era fã de filmes de lutas. Os atores que mais brilhavam eram o Bruce Lee e o [Jean-Claude] Van Damme, eram as referências para eu começar a praticar arte marcial. No começo eu queria apenas aprender a chutar, não imaginava que viraria uma profissão na minha vida.
Você ficou bastante marcado pelo gesto no pódio do Pan em 2007, no Rio, chamando atenção para a causa negra. Como foram as repercussões na sua vida deste gesto? Como a direção do esporte olímpico recebeu ele?
Diogo Silva: Tive repercussões diferentes, de setores diferentes. Da população tive uma aceitação muito grande, positiva. Ela está cansada de garotos propaganda, querem uma mente pensante dentro do esporte. Já do empresariado, das pessoas que regem o esporte, não tive uma impressão positiva. Eles não querem a classe operária discutindo contra o patrão, isso nunca vai ser positivo. Teremos a organização da Copa e da Olimpíada no Brasil, nos próximos seis anos seremos o país mais visto na questão esportiva. Há dinheiro, tem investimento, mas ele não é distribuído igualmente a todas as modalidades, não chega na mão de quem tem que chegar.
Você chegou a ser repreendido de alguma forma por causa do gesto?
Diogo Silva: [Ele] dificultou bastante a minha vida. A repreensão não vem por escrito ou verbalmente, dificulta mais no investimento. Se eu preciso aprovar um projeto, não consigo. Sempre tive dificuldade, criticando sistema eu sempre vou ter. Saberia que o gesto não sairia de graça...
FONTE: UOL.
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